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Cadernos de Ruminar

Um bloco de notas, uma bússola, uma caixa de Pandora, uma biblioteca improvisada, um bloco operatório, um cúmplice à disposição, um inimigo próximo, um observador atento. Um compêndio de anotações como referência, como auxiliar de memória, como suporte de resíduos de experiências e como instrumento de trabalho.
A urgência da última nota antes de dormir. O acto de vasculhar labirintos de apontamentos. A palavra como combustível.

Colecciono provisoriamente cadernos, mas destruo cadernos antigos. Não me quero afeiçoar. Não me quero aperfeiçoar. Não me quero prender às notas do passado.
Anotar, coleccionar referências: lugares, pessoas, leituras, citações. Falar de factos e de relações que marcam, que seduzem e que engendram projectos. Dar-lhes nomes, criar toda uma geografia, toda uma sinalética em torno de escolhas voluntárias ou determinadas pelo acaso.

O processo de ruminar através da escrita, em silêncio. Observo, sou testemunha de mim próprio e dos outros que encontro no meu percurso. Ruminar, prensar pensamentos, prepará-los para a digestão. Ruminar para reorganizar a memória, para produzir lembranças, para actualizar rotas de navegação, para não deixar que as marcas percam a sua nitidez.

A revisão de anotações é um processo contínuo de escrutínio. Uma forma de se rever ou de voltar a submergir no instante da captação. Uma forma de regenerar o processo e de lubrificar a engrenagem.
(...)
Joclécio Azevedo

Excerto do texto publicado na 1ª edição da revista EASI: Revista Anual de Som e Imagem/Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa.
2008

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